Sabe aquele cheiro de terra úmida misturado com o aroma de carne cozida lentamente que invade o nariz assim que a gente coloca o pé em Morretes? Se você já desceu a Serra do Mar, seja pelo trem ou pela sinuosa Estrada da Graciosa, sabe exatamente do que estou falando. Existe uma mística na gastronomia dessa cidadezinha histórica que vai muito além de simplesmente “sentar para almoçar”. É um luxo, sim, mas do tipo mais honesto que existe: o luxo do tempo e da tradição. Muita gente chega em Curitiba focada nos parques e na arquitetura urbana — que são incríveis, não me leve mal — mas é no “bate-volta” para o litoral que a alma paranaense realmente se revela no prato. O Barreado é o protagonista absoluto, e se engana quem pensa que é só um ensopado de carne. O segredo está no ritual. Imagine uma panela de barro pesada, vedada com uma mistura de farinha de mandioca e cinzas (ou apenas água hoje em dia), onde a carne de segunda — geralmente maminha ou patinho — cozinha por doze horas seguidas. Doze horas. É um exercício de paciência que nenhum fast-food consegue replicar. O resultado é uma fibra que se desfaz no garfo, transformando-se em um creme rico e denso. O ritual da farinha Para quem visita a região pela primeira vez, a técnica de servir o barreado é quase um batismo. O garçom coloca a farinha de mandioca no prato fundo, joga o caldo fervendo por cima e começa a bater com o garfo até virar um pirão elástico. O teste de fogo? Virar o prato sobre a cabeça. Se o pirão não cair, está no ponto. É folclore, é diversão, mas é, acima de tudo, técnica ancestral. Mas o luxo simples de Morretes não para na carne. Ele está nos acompanhamentos que contam a história do nosso solo: A banana-da-terra frita ou cozida, que traz a doçura necessária para equilibrar o sal da carne. A farinha de mandioca artesanal, geralmente vinda de pequenos produtores da região de Antonina.
A cachaça de Morretes, envelhecida em madeiras locais, que serve como o digestivo perfeito para o clima úmido da serra. Lembro de um grupo que guiei no ano passado. Eram viajantes que já tinham rodado o mundo, acostumados com menus degustação em capitais europeias. Quando sentamos em um restaurante à beira do Rio Nhundiaquara, com o som das águas e o calorzinho típico da região, eles ficaram fascinados não pela sofisticação do serviço, mas pela profundidade do sabor. “Isso aqui tem gosto de casa de vó, mas com uma técnica de alta gastronomia”, disse um deles. E é exatamente isso. Se você está planejando sua vinda, minha dica de ouro é: não tenha pressa. A gastronomia de Morretes exige que você diminua a rotação. Depois do almoço, caminhe pelas ruas de paralelepípedo, compre um pacote de balas de banana (as de Antonina são as minhas favoritas, confesso) e sinta o tempo passar de um jeito diferente. A produção local de gengibre também é algo que pouca gente nota, mas que está presente em conservas e até em sorvetes artesanais que você encontra nas lojinhas do centro histórico. É uma culinária que respeita o que a terra dá.